ORDISI RALUZ
     
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O que é isto?
 


Que merda !

Quando um dos meus irmãos ousou pronunciar a palavra “merda” - em plena mesa de almoço - tomou uns tabefes na boca pela infâmia e foi colocado de castigo em seu quarto por toda a tarde do sábado.

 

Essa a educação que recebemos em casa, já lá há umas boas décadas.

 

Hoje Mamãe estava em minha casa vendo a Maratona Olímpica conosco quando aquele irlandês idiota segurou nosso brasileirinho que vinha liderando a corrida, essa barbaridade impronunciável que o mundo viu pela TV.

 

Impronunciável? Juro que ouvi Mamãe murmurar: - Que Merda esse desgraçado está fazendo?

 

Putz, meu, estou com uma baita vontade de ligar pro meu irmão e avisar que, afinal, aos 81 anos, Mamãe soltou a franga...



 Escrito por Ordisi Raluz às 00h17
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O Homem Atômico

Eu tinha uns onze ou doze anos. Papai devia estar numa boa fase, pois levou toda a família de férias para Águas de Lindóia. Naquele tempo, chegar lá de carro era uma aventura. E carro era só para gente bem de vida.

 

O Hotel tinha um nome francês que não arrisco escrever, mas pronunciava-se Bucô. Era bastante chique. Não era o mais chique, pois tinha o Glória e o Tamoio, mais caros ainda, freqüentados pelos ainda mais ricos ou pelos ainda mais exibicionistas.

 

Naquele tempo, havia só a piscina municipal e todos deviam fazer o exame médico no consultório do Dr. Tozzi (já tinha mutretinhas) para poder nadar nas águas minerais sempre gélidas, brrr.

 

Todas as manhãs, para irmos à piscina, pegávamos a perua do hotel, uma Plymouth com acabamento externo em madeira envernizada! Que chique a perua do “seu Benedito”!

 

À tarde, matinê, claro. Todos os dias um filme novo, sempre precedidos dos seriados do Batman, do Zorro e do Roy Rogers!

 

Naquele dia, os alto-falantes do cinema anunciavam o “Homem Atômico”. Fiquei excitadíssimo, pois sempre tinha muita curiosidade por esse tipo de assunto.

 

Bem naquele dia, meu pai, sem mais aquela, resolveu “colocar-me na linha” pois - aonde já se viu - ir ao cinema todos os dias! E fincou o pé, decido a evitar que eu me tornasse um filhinho de papai como todos os outros moleques de todos os outros hotéis!

 

Ser punido por esse motivo “educativo”, justo no dia do “Homem Atômico”? Não houve choro, nem soluço, nem pedido de clemência, nem arrazoado materno que o demovessem. Eu chorava, esperneava e nada, o homem ficou irredutível. Pedi para que trocasse o castigo de data, mas nem isso me foi concedido.

 

Que ódio, todos no cinema assistindo maravilhados ao “Homem Atômico” e eu chorando a tarde inteira. Inesquecível.

 

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Ironia (?) do destino, passados uns dez anos fui admitido como estagiário no Instituto de Energia Atômica (antigo IEA, hoje IPEN). Será que fui parar lá por vingança? Será que eu ainda procurava aonde assistir ao “Homem Atômico”?

 

- x -

 

É ainda uma delícia preguiçar uns dias em Águas de Lindóia. Voltamos de lá há apenas um par de horas. Não é mais necessário ser ricaço, nem vestir terno para o jantar. Todos têm carros; muitos carrinhos, poucos carrões.

 

As diversões, porém, agora são outras: onde era o cinema, hoje existe uma galeria de lojas... Acho que, se um dia eu afinal conseguir ver o “Homem Atômico”, não vai ser em Lindóia.



 Escrito por Ordisi Raluz às 00h54
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Astatínio

 

Astatínio, Molibdênio e Telúrio.

 

Não, não me refiro aos elementos químicos. São os três robôs série OR/2044 que caminham apressadamente pela planície de Mercúrio em plena primavera de 2104, sabendo que seu fim pode estar próximo.

 

Estão perto do limiar da noite no Pequeno Inferno. A proximidade do minúsculo planeta com o Sol, faz com que, mesmo no crepúsculo, a temperatura seja inacreditavelmente alta.

 

Faltam poucas milhas para a noite salvadora, mas os sistemas já estão falhando. Os três robôs foram pegos de surpresa, horas antes, por uma violenta erupção solar que saturou o espaço com radiação acima de todos os limites.

 

Seus cérebros positrônicos rapidamente calcularam que, se tomassem as reservas de um deles, dois poderiam chegar a salvo. Mas a terceira lei da robótica seria infringida, pois deveriam lutar para proteger sua existência. Foi quando Astatínio teve uma idéia astuta. Ele iria...

 

- Isaac, meu filhinho, vem jantar - berrou da cozinha a mãe de Asimov - e logo, senão teu guefilte-fish vai prô gato!

 

- Putz - pensou Asimov com seus botões - justo agora? Mas com a fome falando mais alto do que o destino de Astatínio, atendeu sua iidiche mama e foi jantar.

 

Em breve nos cinemas Eu, Robô  baseado no livro I Robot publicado em 1950 por Isaac Asimov. Qual terá sido a idéia de Astatínio? Vejam e me contem, please !!!

 



 Escrito por Ordisi Raluz às 23h48
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Seu... Filho do Pai !

Seu Filho da Mãe!

 

Está bem, está bem, assumo, mas agora é a hora do Filho do Pai. Afinal, o Dia dos Pais está à porta.

 

Vejo meus filhos confabulando e – através do S.M.I. (Serviço Materno de Informações) - sei que estão se quotizando para substituir o meu estimadíssimo par de tênis com apenas uns três ou quatro anos de uso. Vão gastar os tubos...

 

Mas com o meu Pai a coisa fica econômica. Ele já se foi há mais de 11 anos. Eu não gosto nada dessa economia.

 

Penso como ele estaria se ainda estivesse por aqui.  Mesmo rosto: sorridente, bonachão, a careca rodeada por cabelos bem grisalhos. Mesmo corpo: gorducho, rechonchudo de bom jeito, mantendo a força e a agilidade. Mesma personalidade: imperativo e doce, parece impossível, mas ele era assim mesmo.

 

Estaria trabalhando à toda, inventado, inventando. Ele tinha umas cem patentes, conforme afirmou numa entrevista à TV Globo. Não sei ao certo se nesse número estão ou não incluídas as dezenas de ditas cujas internacionais. Foi um dos poucos brasileiros que conseguiu viver condignamente apenas e tão somente de suas idéias, apesar de copiado, roubado e traído, como de praxe com bons inventores.

 

Um cara desses só podia ser um fora de série, o que ele era. Isso às vezes tornava a tarefa de filho bastante mais árdua e exigente, pois vá lá competir com ele... Ah! Estaríamos agora competindo e nos digladiando por todos os assuntos do mundo, de Filosofia ao Futebol e de Asdrúbal a Zoroastro. Ele versus seus quatro filhos mais nove netos. O Velho era uma Enciclopédia, mas todos ganhávamos com isso.

 

Está bem, Velho. Se você quer um bom presente, bem, aqui vai esta lembrança etérea e virtual. Par de tênis, só para nós meros terráqueos.

 

Beijão do Filho do Pai.



 Escrito por Ordisi Raluz às 00h09
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Flick Gnocci DaLua

v. post 28nov2004



 Escrito por Ordisi Raluz às 01h17
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